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Veja sobre essas doenças no site da Sucen:

Malária; Dengue; Febre amarela; Leishmaniose Tegumentar Americana; Leishmaniose Visceral Americana; Doença de Chagas; Febre maculosa; Simulídeos (Borrachudo); Esquistossomose.

 

 

Noções básicas sobre LEISHMANIOSES

 

    Leishmanioses são zoonoses que resultam do parasitismo dos hospedeiros vertebrados por protozoários do gênero Leishmania, o qual apresenta vasta distribuição geográfica na maioria das áreas tropicais e subtropicais do globo terrestre estendendo-se pelas Américas do Sul e Central, Europa, África e Ásia onde são transmitidos por dípteros hematófagos pertencentes à família Psychodidae.

Tais parasitos se apresentam sob duas formas principais: uma flagelada ou promastigota, encontrada no inseto vetor e outra aflagelada ou amastigota, encontrada nos tecidos dos hospedeiros vertebrados.

A multiplicidade das espécies de Leishmania, as particularidades das situações epidemiológicas, a pluralidade das formas clínicas, bem como sua ampla distribuição, permitem distinguir vários tipos nosogeográficos de leishmanioses.

No Brasil são encontradas:

Leishmaniose Visceral Americana (LVA) ou Calazar Neotropical: forma em que os parasitos apresentam acentuado tropismo pelo sistema fagocítico mononuclear do baço, fígado, medula óssea e dos tecidos linfóides; e

Leishmaniose Tegumentar Americana (LTA), denominação que abrange as formas:

cutânea (LC): forma que apresenta exclusivamente lesões cutâneas ulcerosas ou não, porém limitadas;

cutâneo-mucosa (LCM): forma em que aparecem frequentemente lesões destrutivas das mucosas naso-buco-faringeanas; e

cutânea difusa (LCD): forma disseminada cutânea que se apresenta em individuos anérgicos ou, tardiamente, em pacientes tratados da forma visceral.

Por serem morfologicamente muito parecidas, às vezes mesmo indistinguíveis, a classificação das espécies de Leishmania causadoras dos diferentes tipos de afecções que afetam o homem apresenta grande dificuldade. Sua classificação tem se baseado em características secundárias como aspectos clínicos, distribuição geográfica, resposta terapêutica, crescimento em cultura, comportamento no hospedeiro invertebrado, imunidade cruzada, etc.

Em que pese o fato de tais critérios não serem válidos sob o ponto de vista da taxonomia zoológica, há um certo gráu de concordância entre a maioria dos autores quanto à identificação das espécies patogênicas para o homem e, modernamente, as controvérsias vem sendo superadas em decorrência de estudos em que são empregados sorotipos, anticorpos monoclonais, técnicas de imunodifusão, de imunoeletroforese, o estabelecimento de perfís isoenzimáticos, densidade de DNA, hibridação

DNA-RNA, etc.

Dessa forma foi possível classificar as leishmânias que atacam o homem em complexos fenotípicos, agrupados em dois subgêneros: Viannia e Leishmania. Entre outras ocorrem no Brasil, do sub-gênero Viannia a espécie Leishmania (V.) braziliensis, à qual são atribuidos os casos de LTA e do sub-gênero Leishmania, a espécie L. (L.) chagasi, responsabilizada pelos casos de calazar.

A presença de parasitos do gênero Leishmania, no Estado de São Paulo, foi assinalada no início deste século. Aqui as formas predominantes da doença sempre foram as formas cutâneas e cutâneo-mucosas; só recentemente foram assinalados casos autóctones da forma visceral.

LEISHMANIOSE TEGUMENTAR AMERICANA

A Leishmaniose Tegumentar Americana (LTA), também conhecida com os nomes de ferida brava ou úlcera de Bauru; é uma doença primariamente zoonótica, ou seja, uma doença que afeta principalmente animais e, a partir destes, é transmitida ao homem.

Causada por parasitas pertencentes ao gênero Leishmania, envolvendo grande variedade de mamíferos silvestres como reservatórios do parasita, é ela transmitida por insetos vetores pertencentes à família Psychodidae,

subfamília Phlebotominae.

No início deste século, em virtude da derrubada de matas para a formação de plantações e construção de estradas de ferro, numerosos indivíduos, procedentes de frentes de trabalho existentes na zona oeste do Estado e portadores de afecções da pele, começaram a aparecer na Santa Casa de São Paulo. Tais doentes despertaram a atenção dos clínicos pela

semelhança das lesões com o quadro clínico do Botão do Oriente e logo o agente causal foi identificado.

Em 1911, GASPAR VIANNA, um jóvem médico paraense que trabalhava no Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, em virtude de caracteres morfológicos que julgou diferenciarem L. tropica, causador do Botão do Oriente, e o agente etiológico da leishmaniose americana propôs para este o nome de L. braziliensis.

Em 1912, esse mesmo cientista deu, sem sombra de dúvida, um grande passo na luta contra essa parasitose, ao descobrir a ação do tártaro emético para seu tratamento.

Em que pese a descoberta de GASPAR VIANNA, a leishmaniose tegumentar americana estendeu-se acompanhando as derrubadas de matas que precederam a implantação das estradas de ferro ao longo das regiões Noroeste, Alta Paulista e Alta Sorocabana e no sentido perpendicular às vias férreas. Além de Bauru, muitas outras cidades dessas regiões tiveram seus nomes indissoluvelmente ligados à endemicidade da moléstia. Bastaria lembrar Birigui, nome que também é aplicado popularmente aos flebotomíneos transmissores da doença.

A disseminação da leishmaniose tegumentar, inicialmente, foi relativamente pouco estudada no Estado de Såo Paulo. No entanto, de princípios de 1939 a meados de 1941, o Prof. Samuel Pessôa e seus colaboradores da "Comissão de Estudos da Leishmaniose" realizaram, sobre o assunto, amplas investigações das quais resultaram numerosos trabalhos, enfeixados em excelente Monografia que veio à luz em 1948.

Há então um vazio de informações que só foi rompido no final da década de 50 quando, na zona sul do Estado até então considerada isenta dessa parasitose, foi descrito um foco de leishmaniose tegumentar em que foram constatados 8 casos.

Seguem-se alguns relatos de outros poucos casos na década de 60, sendo interessante notar que, embora alguns desses relatos refiram-se a zonas rurais ainda florestadas, outros dizem respeito à Capital e suas cercânias. No período de 1975 a 1978, verifica-se o registro de 34 casos em 75, 21 em 76, 10 em 77 e um aumento brusco em 1978, 124 casos (CIS, 1985). Nesse ano a doença passou a ser considerada de notificação compulsória.

De então para cá, outros casos têm sido registrados anualmente e dados referentes a eles podem ser encontrados em

http://www.cve.saude.sp.gov.br/htm/Leis_es.htm

LEISHMANIOSE VISCERAL

A Leishmaniose Visceral Americana (LVA), conhecida como calazar americano, também é primariamente uma doença zoonótica, ou seja, uma doença que afeta principalmente animais e, a partir destes, é transmitida ao homem.

Segundo alguns autores a leishmaniose visceral americana foi introduzida nas Américas por câes ou pacientes vindos da Bacia do Mediterrâneo e adaptou-se a um ecossistema em que cão, homem e flebotomíneos do gênero Lutzomyia mantém o ciclo. Este, por vezes, estende-se a outros animais. Há autores, no entanto, que admitem ser o calazar americano uma zoonose autóctone das Américas, desempenhando os canídeos silvestres como Lycalopex vetulus e Cerdocyon thous, conhecidos vulgarmente como "raposas", o papel de reservatórios naturais.

No Brasil, embora guarde em muitas situações suas características de zoonose predominantemente rural, em algumas cidades, talvez em consequência da grande imigração de trabalhadores e de seus cães infectados, ocorre também nos bairros localizados próximos de criadouros dos transmissores que picam indiferentemente homens e animais. Estabelece-se, assim, um processo de urbanização da enfermidade que, na dependência das facilidades que os flebotomíneos encontrem para a manutenção de seus criadouros, poderá ampliar as proporções da endemicidade.

AGENTES ETIOLÓGICOS

No Estado de São Paulo, Leishmania (Vianna) braziliensis, Vianna, 1911, é a espécie incriminada como agente etiológico da doença, particularmente, da forma cutânea. A forma clínica mucosa é detectada em apenas 3 a 5% dos casos de LTA.

A leishmaniose visceral americana é causada por Leishmania (Leishmania) chagasi e se caracteriza por febre, esplenomegalia, anemia e caquexia.

RESERVATÓRIOS

São mamíferos silvestres: roedores, canídeos, marsupiais, ungulados e edentados, ou seja, ratos, cães, gambás, raposas, tamanduás e bichos-preguiça, variando conforme o tipo de leishmaniose considerada.

MODO DE TRANSMISSÃO

O inseto ao picar o hospedeiro desenvolve o parasito no intestino tornando-se infectante. Ao picar novo hospedeiro (homem ou animal), irá transmitir o parasito.

PERÍODO DE INCUBAÇÃO

Varia, conforme os parasitos envolvidos, podendo chegar a períodos de um mês a um ano ou até mais.

PERÍODO DE TRANSMISSÃO

Ocorre, enquanto houver parasitas nas lesões.

MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS

LTA

O quadro cutâneo, inicia-se pelo aparecimento de pequena lesão eritemato-papulosa no local da picada do vetor, posteriormente há

formação de um nódulo que pode atingir 1 cm de diâmetro em aproximadamente 4 semanas de evolução, com o aparecimento de uma crosta central. A perda desta crosta dá origem a uma úlcera, que evolui formando úlcera leishmaniótica clássica, de formato arrendondado, com bordas elevadas e infiltradas.

A lesão inicial pode ser única ou múltipla, dependendo do número de picadas infectantes.

A mucosa mais freqüentemente acometida é a da região nasal. Os principais sinais e sintomas são epistaxis, eliminação de crostas e

obstrução nasal.

Existem duas formas extremas: a ulcerativa e não ulcerativa e as formas intermediárias. Além das lesões nasais, podem ocorrer lesões em lábios, língua, pálato, orofaringe e laringe.

LV

As lesões iniciais costumam ser minúsculas pápulas, com poucos milimetros de diâmetro e localizadas, em geral, na face. Costumam desaparecer antes que surja o quadro sintomático. Dependendo da cêpa do parasita ou da imunidade do paciente, a infecção pode terminar aí, evoluindo o processo para cura expontânea. Por outro lado, nos individuos suscetíveis, o início clínico pode ser abrupto, com febre alta de 39,5 ou 40° C, contínua ou intermitente, lembrando infecções intestinais, febre tifóide

ou malária, mas também pode ser insidioso ou mesmo evoluir silenciosamente.

No decurso da doença a febre é o sintoma mais importante, pela sua constância, variando quanto à forma e intensidade.

O baço aumenta de volume muito precocemente, podendo atingir grandes dimensões. O mesmo acontece com o fígado, mas em menor escala.

Com freqüência são observados tosse sêca e sinais de bronquite; raramente broncopneumonia.

Perturbações do apetite e emagrecimento podem levar, progressivamente, a um estado de desnutrição e caquexia.

Há marcada tendência às hemorragias, destacando-se pela freqüência, as epistaxes, hemorragias gengivais, enterorragias e algumas vezes, petéquias.

Na pele pode-se observar edema e, numa proporção variável de casos, segundo a região geográfica, hiperpigmentação.

DIAGNÓSTICO

Em relação ao diagnóstico, afora os aspéctos de sintomatologia, devem ser consideradas características diferenciais com outras enfermidades bem como os aspéctos epidemiológicos, mas além destes, em geral, são necessários o encontro do parasito ou provas sorológicas adequadas.

DIAGNÓSTICO EPIDEMIOLÓGICO

Informações sobre procedência do paciente, locais de residências anteriores, atividades relacionadas com desmatamento ou com atividades de lazer em florestas devem ser verificadas.

DIAGNÓSTICO LABORATORIAL

Os métodos laboratoriais podem ser divididos em dois grupos:

Métodos de demonstração do parasita

exame parasitológico direto(esfregaço de raspado da lesão tegumentar ou de material de punção de medula óssea, do baço, do fígado, de gânglios linfáticos e no sangue)

cultura em meio de N.N.N. ou similar

inoculação em hamster ( isolamento para classificação de leishmanias)

exame histopatológico ( biópsia da lesão)

Métodos indiretos ou imunológicos

reação intradérmica de Montenegro (IRM)

reação imunofluorescência indireta (RIFI)

reação de hemaglutinação passiva

reação de fixação do complemento (RFC)

reação de aglutinação direta

reação de ELISA

reação de Dot ELISA

reação de formol-gel

reação de Brahmacari

 

TRATAMENTO

A droga de primeira escolha para todas as formas clínicas de leishmaniose é o antimonial pentavalente conhecido por glucantime. A droga é de fácil aplicação com poucos efeitos colaterais e baixa toxicidade. Como efeito colateral podem ocorrer dores musculares e articulares, náuseas, dores abdominais, febre, dor de cabeça. Geralmente, estes sintomas são discretos e não exigem a suspensão do tratamento. A posologia varia conforme a idade do paciente.

 

VETORES

Os vetores das leishmanioses são dípteros da família Psychodidae denominados flebotomíneos, também conhecidos como: cangalha, cangalhinha, mosquito-palha, birigui, tatuíra, etc.

As principais espécies transmissoras, no Brasil, são: Lutzomyia intermedia, L. whitmani, L. pessoai, L. migonei e L. longipalpis, sendo esta última a mais relacionada com a transmissão da leishmaniose visceral.

Características:

são menores que os pernilongos comuns;

apresentam-se muito pilosos e de coloração clara (cor de palha ou castanhos claros);

facilmente reconhecidos pela atitude que adotam quando pousam, pois as asas permanecem erectas e entreabertas;

as fêmeas exercem hematofagia, preferencialmente, no horário noturno.

BIOLOGIA E COMPORTAMENTO

Formas evolutivas:

Ovos

A oviposição é feita em quantidades de 40-70 ovos, em lugares úmidos e com matéria orgânica, ficando os ovos aderentes ao substrato, graças a substâncias viscosas que acompanham as desovas. O período de incubação estende-se de 6 a 17 dias, variando conforme a temperatura. A eclosão, geralmente se dá de 7 a 10 dias após a postura.

Larvas

Passam por 4 mudas e seu período de desenvolvimento varia, conforme a espécie, a temperatura, a umidade e o alimento disponível, podendo durar de 18 dias até meses, nas épocas frias e secas.

Pupas

A pupa não se alimenta, permanecendo imóvel. A duração do período pupal varia de 7-12 dias, dependendo também da temperatura e de fatores genéticos.

Adultos

A eclosão dos machos, inicia-se antes da das fêmeas , ocorrendo preferencialmente à noite. A cópula ocorre em superfície, podendo acontecer mesmo quando a fêmea está se alimentando. Ambos os sexos necessitam de carboidratos, que são extraídos de néctar de flores e frutos, como fonte energética. As fêmeas necessitam ingerir sangue para o desenvolvimento dos ovos.

Comportamento

Movem-se de modo saltitante, com vôos curtos; podendo ser coletados tanto em copa, como em solo.

Os criadouros em ambientes extra domiciliares são: raízes tubulares de árvores, ocos, depressões e buracos de troncos de árvores e tocas de animais: entre e sob as rochas, fendas e juntas.

No ambiente domiciliar e peridomiciliar: chiqueiros de porcos, bananais, tendo, algumas espécies, grande capacidade de se adaptarem ao ambiente domiciliar humano, quando ocorre destruição do seu habitat natural.

A sazonalidade e a densidade são dependentes de alguns fatores como temperatura, umidade (chuva), velocidade dos ventos; podendo seu número, nos meses quentes e úmidos, aumentar e nos meses frios e secos, diminuir.

MEDIDAS DE PREVENÇÃO

Pelo fato de serem zoonoses primitivas das florestas, há dificuldades em aplicar contra as leishmanioses medidas preventivas utilizáveis em relação

a outras doenças transmitidas por vetores. Na maior parte das áreas endêmicas, onde se observa o padrão clássico de transmissão, pouco pode ser feito no momento em relação à profilaxia da doença, dada a impossibilidade de se atuar sobre as fontes silvestres de infeção. No entanto, algumas medidas devem ser adotadas, tais como:

medidas clínicas, diagnóstico precoce e tratamento. A partir dos sintomas, o homem deve ser submetido a exames e tratamento adequado.

- medidas de proteção individual. São meios mecânicos como uso de mosquiteiros simples, telas finas em portas e janelas, evitar a frequência na mata, principalmente no horário noturno, a partir do anoitecer (crepúsculo) sem o uso de roupas adequadas, boné, camisas de manga comprida, calças compridas e botas, além do uso de repelentes.

- medidas educativas. As atividades de educação em saúde devem estar inseridas em todos os serviços que desenvolvem ações de controle, requerendo o envolvimento efetivo das equipes multiprofissionais e multiinstitucionais com vistas ao trabalho articulado nas diferentes unidades de prestação de serviço.

MEDIDAS DE CONTROLE

Uma vez efetuada a delimitação da área de foco, definido como espaço de transmissão que poderá ser o local de residência, local de trabalho ou área para onde o paciente tenha se deslocado e em que existam fatores condicionantes de transmissão, isto é, o relacionamento da população humana local com flebotomíneos transmissores em áreas onde houve modificação do ambiente natural e onde haja sido detectado um ou mais casos autóctones, pode-se realizar o Controle Químico.

Para tanto, no Estado de São Paulo observa-se a ocorrência das seguintes condições:

transmissão domiciliar

ocorrência de 2 ou mais casos na área de foco no período de 6 meses.

Utilizam-se então inseticidas de ação residual: piretróides

Deltametrina SC ou CE 2,5% (200 ml produto para 8 litros de solvente).

ou

Deltametrina SC 5,0% (100 ml produto para 8 litros de solvente).

1 ciclo de borrifação, em todas as unidades domiciliares da área delimitada, teto ao chão e beirais.

repetição de novo ciclo a cada 6 meses (até completar 6 meses), na condição de ocorrência de novos casos.

 

 

O texto abaixo é Apenas para técnicos!!!!! (eu acho) J

CISTEÍNA-PROTEINASES DE LEISHMANIA

NOVO ALVO PARA TERAPIAS?

Yara Maria Traub-Cseko

Ph.D em Biologia Molecular pela Universidade de Columbia, New York - EUA.

Chefe do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular do Instituto Oswaldo Cruz.

Pesquisadora Visitante na Universidade de Yale, EUA.

Fundação Oswaldo Cruz, Instituto Oswaldo Cruz,

Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular, Rio de Janeiro, RJ

 

Leishmania são protozoários parasitas causadores das leishmanioses, que vão desde formas graves viscerais, fatais quando não tratadas, até formas cutâneas de cura espontânea. Estas doenças afetam milhões de pessoas em todo o mundo, e são um grave problema de saúde pública no Brasil. Estes parasitas são transmitidos ao hospedeiro mamífero, inclusive o homem, pela picada de um pequeno inseto, o flebótomo. No inseto a Leishmania existe como um parasita flagelado extracelular, uma forma chamada promastigota. Quando o promastigota é injetado no mamífero pela picada do inseto, ele invade as células que normalmente são responsáveis pela defesa imune do organismo, os macrófagos, onde se transforma numa forma arredondada imóvel, o amastigota, que aí se multiplica. A ingestão destas formas pelo inseto fecha o ciclo infeccioso. A capacidade de sobrevivência da Leishmania nestas células de defesa, um ambiente normalmente hostil a organismos invasores, tem atraído o interesse de muitos pesquisadores. Apesar dos mecanismos de

escape não serem ainda totalmente compreendidos, vários aspectos fascinantes já são conhecidos, como o

desenvolvimento de estratégias de detoxificação que incluem a produção de moléculas inibitórias específicas como catalases, novos agentes redutores e inibidores de proteína quinases. O conhecimento de características das formas amastigotas que sobrevivem nos macrófagos, e das moléculas por elas produzidas, que podem estar envolvidas nestes mecanismos de escape, é portanto de grande importância potencial para o desenvolvimento de vacinas e novas terapias. Nosso laboratório vem trabalhando com uma destas moléculas

amastigota-específicas, as cisteína-proteinases. Provavelmente a cisteína-proteinase mais conhecida popularmente é a papaína do mamão, muito utilizada no amaciamento de carnes. Cisteína-proteinases existem em praticamente todos os organismos onde foram procuradas, desde vírus, bactérias e plantas, até nos mamíferos, tendo funções diferentes nos vários casos. Elas foram encontradas também em vários parasitas de interesse para o homem. Uma produção aumentada de cisteína-proteinases por amebas, parasitas unicelulares que podem provocar sérias diarréias, foi correlacionada à gravidade da doença causada, uma vez que estas

proteinases parecem estar implicadas na capacidade invasiva destes parasitas. O Schistosoma, um verme que tem um estágio de diferenciação num vetor caramujo, é transmitido ao homem em águas infectadas por uma pequena forma chamada cercária, que penetra pela pele. Uma cisteína-proteinase foi responsabilizada por este processo invasivo. Testes preliminares demonstraram que a utilização de inibidores destas proteinases, quando passados na pele de animais de laboratório, eram capazes de bloquear a transmissão do parasita. Cisteína-proteinases foram também detectadas, e estão sendo exaustivamente estudadas, em protozoários parasitas como o plasmódio causador da malária, e os tripanosomatídeos patogênicos Trypanosoma brucei, causador da doença do sono na África, e o Trypanosoma cruzi, causador da doença de Chagas no Brasil e outros países das América, como um alvo potencial para novas terapias e desenvolvimento de vacinas. No caso do protozoário causador da malária, cisteína-proteinases são responsáveis pela quebra da hemoglobina que nutre estes parasitas. No T. cruzi elas parecem ter um importante papel no ciclo de desenvolvimento do parasita. Em Leishmania, inibidores de cisteína-proteinases inibem em grande parte a transformação

de promastigotas para amastigotas, e diminuem dramaticamente a infecção de macrófagos. Informações detalhadas sobre cisteína-proteinases de Leishmania podem ser obtidas numa revisão que publicamos em Ciência e Cultura (vol. 45 N.5, 1993).

Nossos trabalhos sobre cisteína-proteinases de Leishmania iniciaram-se pela identificação e caracterização dos genes que codificam estas enzimas. Isto foi possível explorando uma de suas características, a alta conservação das seqüências correspondentes aos sítios ativos, aos quais se liga o substrato. Isto permitiu o desenho de pequenas seqüências de DNA que foram usadas como iniciadoras numa técnica de amplificação de DNA conhecida como PCR, a reação em cadeia da polimerase. As seqüências amplificadas foram seqüenciadas e desta maneira conseguimos identificar dois genes que codificam duas cisteína-proteinases distintas. O estudo cuidadoso destas seqüências nos permitiu chegar a várias conclusões interessantes: trata-se de duas proteinases bastante diferentes, tão diferentes entre si, digamos, como uma cisteína-proteinase de T. cruzi e qualquer uma das de Leishmania. A quantidade das proteínas produzidas por estes genes, que chamamos de Lpcys1 e Lpcys2, é bastante diferente, a 2 sendo muito mais abundante que a 1, o que é

correlacionado com o número de genes presentes no genoma, apenas um gene na 1, e uma dezena de cópias pelo menos da 2. Outra diferença que chamou a atenção foi a ausência, em Lpcys1, de uma extensão no fim C-terminal da proteína, que é característico de todas as cisteína-proteinases de tripanosomatídeos estudadas até agora. Os dois tipos de genes encontram-se também em cromosomas diferentes. Sua localização celular na Leishmania foi determinada através de marcação com anticorpos e visualização por microscopia eletrônica. Ambas foram encontradas em abundância nos lisosomas e Lpcys1 em quantidades significativas na bolsa flagelar, uma cavidade na base do flagelo que parece servir como um importante sítio de ingestão e secreção nestes parasitas. Neste meio tempo, um grupo de pesquisadores na Escócia estava estudando alguns outros aspectos desta proteinases de Leishmania. Estudos funcionais foram feitos através da técnica de eliminação ou knockout gênico. Esta técnica tornou-se possível a partir do desenvolvimento de transfecção em Leishmania. Um dos carros-chefes da engenharia genética é a técnica de clonagem molecular, onde genes heterólogos são ligados a plasmídeos bacterianos e depois reintroduzidos e amplificados em bactérias. O equivalente desta técnica foi também desenvolvido para tripanosomatídeos, inclusive Leishmania. Foram criados plasmídeos capazes de se replicar nestes parasitas, que são introduzidos na Leishmania pela técnica de eletroporação. O plasmídeo introduzido pode conter um gene construído de tal maneira que, através de recombinação genética, se insira no gene normal da célula e o destrua, causando assim uma deficiência de seu produto. A chamada genética reversa é uma arma poderosa para o estudo funcional de genes específicos. Quando o grupo da Escócia eliminou o gene de Lpcys1 de Leishmania, não foi possível detectar qualquer efeito deletério nas células, indicando não ser este um produto essencial para a sobrevivência do parasita. Quando, entretanto, as cópias de Lpcys2 foram eliminadas, essas leishmânias perderam em grande parte sua capacidade de infectar e sobreviver nos macrófagos, comprovando assim seu importante papel na virulência destes parasitas.

Nosso interesse atual se foca principalmente no estudo de mecanismos de trânsito celular de cisteína-proteinases em Leishmania, ou seja, na sinalização que leva estas proteinases aos lisosomas. Pouco se sabe a respeito das características moleculares responsáveis pelo endereçamento de proteínas em tripanosomatídeos em geral. Foi identificado um sinal de apenas três aminoácidos que é capaz de levar proteínas ao glicosoma, uma organela característica de tripanosomatídeos onde se concentram enzimas glicolíticas. Os sinais de direcionamento ao lisosoma são bem conhecidos em vários organismos, existindo mesmo, em mamíferos, patologias definidas relacionadas a mecanismos deficientes de endereçamento de enzimas ao lisosoma. O mecanismo mais comum, que envolve receptores e uma marcação por glicose-6-fosfato nas enzimas lisosomais, não parece existir em Leishmania. Foi aventada na literatura a hipótese do envolvimento da extensão C-terminal, característica de tripanosomatídeos, neste processo. A descoberta, em nosso laboratório, de uma classe de cisteína-proteinases de Leishmania que não tem esta extensão, e mesmo assim tem uma localização lisosomal, vai contra esta hipótese. Duas abordagens estão sendo utilizadas neste estudo. Estão

sendo clonados os fragmentos gênicos que antecedem e sucedem a seqüência que dará origem à proteinase madura e ativa, juntamente com um gene repórter, que dá origem à proteína verde fluorescente, de uma água-viva marinha. A fluorescência desta proteína repórter pode ser visualizada por microscopia, sendo assim possível determinar qual fragmento da cisteína-proteinase é responsável pelo endereçamento ao lisosoma. Na outra abordagem está sendo investigado o envolvimento potencial de açúcares no direcionamento. Já foi demonstrada a presença de açúcares em cisteína-proteinases de tripanosomatídeos. É possível determinar, a partir da seqüência primária dos aminoácidos na proteína, os sítios potenciais de glicosilação. Dois destes sítios foram identificados em Lpcys2, a cisteína-proteinase abundante de Leishmania. Nossa intenção é modificar estes aminoácidos através de mutagênese dirigida, e depois verificar se estas proteinases, agora deficientes em sua glicosilação, ainda são capazes de encontrar seu caminho ao lisosoma. Já conseguimos com sucesso eliminar um destes sítios, e no momento estamos introduzindo estes genes mutados em Leishmania através de transfecção. Outro experimento que já foi levado a cabo em nosso laboratório foi a

introdução do gene de Lpcys2 numa espécie de Leishmania que normalmente apresenta níveis baixos desta proteinase, com o intuito de averiguar o efeito de uma superprodução no parasita, em relação, por exemplo, à virulência. Quando o gene heterólogo foi introduzido em formas promastigotas, observamos um efeito inesperado: quando a proteinase foi visualizada em géis com o auxílio de anticorpos específicos, não foi visto o processamento que dá origem à proteinase madura e ativa, como é o caso nas formas amastigotas da espécie de onde foi clonado Lpcys2. Isto pode ter dois significados: ou esta espécie distinta de Leishmania não reconhece os sinais de processamento molecular da espécie original e/ou o processamento, que ocorre normalmente em amastigotas, não ocorre na forma promastigota. As duas são possibilidades excitantes que estão sendo investigadas no momento. Talvez a aplicação mais dramática, com direito a manchetes recentes nos jornais, das cisteína-proteinases como um alvo para quimioterapias, seja a utilização de inibidores destas proteinases como um dos componentes dos tão divulgados "coquetéis" anti-HIV. É possível que um futuro não muito distante veja o desenvolvimento de novas terapias baseadas em inibidores de cisteína-proteinases em várias doença infecciosas e parasitárias, inclusive as leishmanioses, tão carentes de novos desenvolvimentos nesta área.

 

 

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construída e administrada por Maria Thereza Cera Galvão do Amaral
Criado em 1999. Revisado: novembro, 2014.

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